Tempos de aposta: as mudanças nos hábitos de consumo

O mercado de bets no Brasil está cercado de incertezas. Apesar de ter sido legalizado em 2018, ainda é motivo de debate. O Projeto de Lei 13.756 determinava um prazo de quatro anos para a regulamentação completa das apostas. No entanto, oito anos se passaram e ainda não há consenso sobre este assunto. O tema é delicado. As bets movimentam grandes quantias anualmente. O faturamento estimado do setor em 2025 foi de aproximadamente R$ 22 bilhões por mês, o que coloca o Brasil entre os maiores do mundo. Por outro lado, apresentam risco de vício e diminuição do poder de compra de seus apostadores. 

Se o poder de compra diminui, o consumo também vai. Não só o de homens adultos, que é o grupo de maior participação no mercado das bets. É natural que a família desses homens, caso tenham dependentes financeiros, também sejam afetadas. E o cenário é intensificado pela tendência a comportamentos compulsórios. 

Por isso, o setor de varejo deve analisar os efeitos das apostas em um cenário macro e combater possíveis danos em diversas frentes, observando as experiências internacionais. O tema já gerou respostas legislativas concretas em vários países. A Itália foi pioneira ao banir toda publicidade de apostas em 2018, por pressão de saúde pública e preocupação com o jogo patológico. A Espanha seguiu em 2020, proibindo patrocínios esportivos e o uso de celebridades em campanhas do setor. A Alemanha reformou sua legislação em 2021, com restrições severas à publicidade dirigida a menores e ao jogo compulsivo. No Reino Unido, anos de pressão parlamentar e da sociedade civil resultaram, em 2023, em um pacote de reformas que reconhece os prejuízos causados, mas sem chegar a um ban total. Na China, a proibição é integral no continente. São modelos distintos, mas com uma direção comum: o cerco ao setor tende a se apertar. 

Como as apostas afetam a economia 

Uma das grandes desvantagens das apostas é que mesmo quando os usuários das plataformas ganham, o dinheiro não circula externamente. Na maioria dos casos, o lucro é reinvestido em novos jogos. Outra questão que deve ser levada em conta é a condição financeira do público das apostas. A maior parte está inserida em classes de baixo poder aquisitivo. 

A explicação pode estar na busca por condições melhores: em momentos de dificuldades financeiras, as apostas podem parecer um meio de ascensão.  Mas o que acontece na prática é o contrário. O valor investido nas apostas é perdido. Isso diminui a renda do apostador e pode afetar sua família. Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) com a AGP Pesquisas revelou que 63% dos apostadores tiveram sua renda comprometida. Desse total, cerca de 19% reduziu o gasto com supermercados.  

Cultura e lazer, assim como artigos de roupa também são afetados intensamente. Para resumir, grande parte dos gastos considerados “não essenciais” são cortados com objetivo de dar lugar às bets. A maioria dos usuários cadastrados em plataformas de bets estão endividados. De acordo com o Instituto Locomotiva, o índice chega a 86%.  

A rápida ascensão desta prática também interfere no hábito de guardar dinheiro. Apostadores frequentes dão outro destino para o que antes era destinado a investimentos de pequeno risco e poupanças. De maneira indireta, o varejo perde os consumidores que arriscam sua renda em jogos de azar. O que significa perda parcial do consumo de aproximadamente 18 milhões de brasileiros. O número reflete a quantidade de apostadores cadastrados em bets no primeiro semestre de 2025, de acordo com o Ministério da Fazenda. 

O panorama da regulamentação de bets e horizontes para o futuro 

Apesar dos dados alarmantes, os debates acerca dos malefícios das apostas têm impulsionado regras mais firmes.  Em 2023, uma Medida Provisória e um PL foram enviados à Câmara e ao Senado, oficializando regras e incluindo apostas on-line. A legislação tem como objetivo aumentar a fiscalização e reduzir riscos. 

Entre as obrigações impostas às casas de apostas estão: tributação de 13% sobre a receita líquida e ter sede administrada no Brasil. Outra medida é a restrição a peças publicitárias com participação de atletas, artistas, comunicadores, influenciadores ou autoridades. O Congresso aprovou ainda, em 2025, aumento anual gradativo dos impostos. A expectativa é que até 2028, as casas de apostas paguem 18% do lucro obtido.  

Para o varejo, competir com as bets exige planejamento e estratégia. Mas com a implementação dessas exigências, o setor das apostas pode se ver pressionado, tanto em termos de investimento quanto de perda de mercado. O que abriria espaço, nesse caso, para uma “reconquista” do consumo no varejo. 


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