Nosso conteúdo | 26 junho 2026
As mudanças provocadas pela Reforma Tributária, que entram em vigor a partir de 2027, vão alterar a lógica de precificação, o fluxo de caixa e a relação com fornecedores. Quem se antecipar sai na frente.
2026: o ensaio geral da Reforma Tributária
As notas fiscais já registram os novos tributos, a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), com alíquotas simbólicas de 1%. As empresas calculam e informam, mas ainda não pagam. O objetivo é testar sistemas e processos antes do impacto real.
O cronograma das próximas etapas:
- Dezembro de 2026: PIS e Cofins deixam de existir. A CBS entra no lugar.
- A partir de 2029: o IBS começa a substituir gradualmente o ISS e o ICMS.
- 2033: transição concluída.
Além das alíquotas, mudam os documentos fiscais. Notas de débito e crédito, hoje apenas contábeis, passam a ter efeito tributário, gerando obrigação de pagamento e direito a crédito ao mesmo tempo. Os layouts das notas também estão sendo revisados, com municípios adotando modelos próprios, o que exige atenção de quem opera em mais de um estado.
A recomendação número 1: conheça seus fornecedores
O ponto mais crítico da preparação é entender a situação tributária dos fornecedores, especialmente os enquadrados no Simples Nacional.
Funciona assim: hoje, quem compra de um fornecedor no Simples tem direito a tomar crédito integral de PIS e Cofins sobre essa compra, independentemente do quanto esse fornecedor paga de tributo. Com a reforma, esse crédito praticamente desaparece e esse buraco vira custo para o varejista.
O Simples é a única categoria que pode escolher entre aderir ou não ao novo regime. Por isso, a pergunta que o varejo precisa fazer agora é direta: meus fornecedores vão migrar?
Se migrarem, a conversa passa a ser sobre como a precificação vai mudar e como isso afeta o custo de aquisição. Se ficarem no Simples, o crédito cai e alguém absorve a diferença. O varejista precisa saber com antecedência se vai manter o preço, comprimir a margem ou repassar ao consumidor.
Para isso, é preciso olhar por duas pontas:
- Receita: o débito sobre as vendas tende a ficar parecido com o atual, salvo para quem opera com incentivos fiscais regionais, que pode enfrentar aumento de carga.
- Custo: a reforma amplia o aproveitamento de créditos tributários ao longo da cadeia, o que representa uma oportunidade real de benefício para o varejo.
Atenção: a cadeia inteira vai reprecificar. Assim como o varejista vai recompor seus preços com base na nova tributação, seus fornecedores farão o mesmo. O custo de aquisição vai mudar. Mapear esse novo número antes que as mudanças entrem em vigor é o que permite chegar a 2027 com projeções confiáveis.
Os desafios que chegam com a Reforma Tributária
Desafio 1: precificar produto a produto
O varejo é um setor de volume. Uma rede de médio porte pode ter dezenas de milhares de itens ativos, cada um com código, preço e classificação fiscal próprios. A reforma exige que a tributação de cada produto seja analisada individualmente.
O complicador: a Reforma Tributária organiza os produtos por NCM, a classificação fiscal padronizada, mas um mesmo código pode reunir produtos com tributações diferentes dependendo para onde são vendidos. Dois itens classificados da mesma forma podem ter impactos distintos na conta tributária. Fazer essa análise em escala, com a granularidade que a reforma exige, é um dos maiores trabalhos práticos que o varejo tem pela frente.
Desafio 2: o caixa que vai sentir o split payment
O split payment ainda está sendo regulamentado, com indicações de adesão facultativa para 2027, mas o conceito já exige atenção. Quando o cliente pagar com cartão ou Pix, o sistema bancário vai separar automaticamente o valor do tributo e enviá-lo ao governo antes de o dinheiro chegar à empresa. O varejista recebe o valor líquido da operação.
Isso elimina o float tributário, o período em que a empresa ficava com o valor do imposto disponível no caixa por semanas antes de repassá-lo ao fisco. Para um setor que opera com margens apertadas e depende do giro de caixa para funcionar, o impacto pode ser considerável.
O e-commerce tende a ser um pouco mais afetado que os demais canais, por operar majoritariamente com cartão e Pix e por envolver diretamente o consumidor final, que não é contribuinte dos tributos.
Desafio 3: os dados que faltam no cadastro
A Reforma Tributária passa a considerar o local do consumo na apuração do tributo. Onde o consumidor final está localizado passa a ser uma informação tributariamente relevante.
O problema é que muitas bases cadastrais do varejo têm lacunas básicas: CEP ausente, endereço incompleto, dados desatualizados. Resolver isso exige um trabalho sistemático: mapear os CEPs em falta, cruzar com outras bases disponíveis, associar a localização do consumidor aos registros de venda e garantir que esse dado alimente os sistemas fiscais antes que a exigência entre em vigor. Volume alto de transações torna o processo mais trabalhoso, e os erros se multiplicam na mesma proporção.
Carga tributária: o que os números escondem
A alíquota de 26,5% do novo IVA assustou o mercado quando foi anunciada. Para quem pagava 5% de ISS, parecia um salto insuportável. Só que essa conta ignora um dos pilares mais importantes da Reforma Tributária: a não cumulatividade plena.
Hoje, as empresas aproveitam crédito tributário sobre uma lista limitada de custos e despesas. Com a reforma, essa possibilidade se amplia de forma significativa ao longo de toda a cadeia produtiva. O efeito prático é que a alíquota efetiva real fica bem abaixo do número nominal.
O exemplo mais claro vem do setor de serviços: o salto aparente é de 5% para 26,5%. Mas levando em conta que a alíquota efetiva atual já estava na casa de 14%, e que a ampliação dos créditos reduz substancialmente o impacto, o aumento real fica entre 3% e 5%, dependendo da atividade.
Para o varejo, a expectativa é positiva. Desde que a maioria dos fornecedores esteja fora do Simples Nacional, o setor tende a sair flat ou com alguma redução de carga tributária. A reforma, para quem se preparar bem, pode ser menos pesada do que parece.
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